A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de suspender lotes de produtos da Ypê rapidamente se transformou em um tema que vai além da questão de saúde pública, tornando-se um novo capítulo na polarização política nas redes sociais no Brasil. A polêmica teve início na quinta-feira (7/5), quando a Anvisa ordenou o recolhimento de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes fabricados pela empresa em sua unidade em Amparo, São Paulo, afetando todos os lotes que terminavam em 1. Além do recolhimento, a agência também suspendeu a fabricação, comercialização, distribuição e uso desses produtos devido a falhas no processo de produção e riscos de contaminação microbiológica.
Apesar de a Anvisa ter decidido suspender temporariamente a implementação dessa medida após um recurso da Ypê, a agência ressaltou que não alterou sua avaliação técnica sobre os riscos à saúde e continua recomendando que consumidores evitem os produtos dos lotes em questão até que uma decisão final seja tomada. Em resposta, a Ypê optou por manter parte de sua produção parada enquanto toma as medidas exigidas pela Anvisa.
Em poucas horas, a situação evoluiu para um embate político nas redes sociais. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a acusar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva de estar perseguindo a empresa, destacando que membros da família controladora da Química Amparo, proprietária da Ypê, fizeram doações significativas à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, a família Beira, associada ao grupo controlador, doou R$ 1 milhão à campanha do ex-presidente.
A relação entre a empresa e o bolsonarismo já tinha gerado polêmica anteriormente, como quando a Química Amparo foi condenada por assédio eleitoral após promover uma live em apoio a Bolsonaro para seus funcionários, embora a companhia tenha se declarado apartidária na ocasião.
Nas redes sociais, influenciadores, políticos e celebridades começaram a postar vídeos consumindo ou promovendo produtos da Ypê, em uma espécie de campanha de apoio à marca. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, publicou um vídeo lavando louça com o detergente da Ypê, incentivando seus seguidores a adquirirem os produtos. "Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com essa empresa 100% brasileira", afirmou ele.
O senador Cleitinho também fez um vídeo utilizando o produto e criticando a Anvisa, questionando se o órgão fiscalizaria "a bucha de cada brasileiro". O deputado estadual Lucas Bove alegou que a empresa estava sendo "perseguida" por sua associação com o bolsonarismo. Por outro lado, o prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga, adotou uma postura mais cautelosa, sugerindo que os consumidores substituíssem os lotes afetados, mas condenando o que chamou de "massacre" à companhia.
Celebridades também se manifestaram. A cantora Jojo Todynho gravou vídeos utilizando o detergente e afirmando que continuaria a usá-lo. O ator Júlio Rocha ironizou a situação nas redes sociais, mencionando que já havia "tomado banho com Ypê" e usado os produtos em brincadeiras com seus filhos. Muitos internautas compartilharam memes e imagens geradas por inteligência artificial ligando a marca à direita política, com algumas postagens sugerindo que a empresa mudasse a cor vermelha de certos produtos, em alusão ao PT. Outros incentivaram o consumo dos produtos como uma forma de protesto político.
Enquanto isso, órgãos de vigilância sanitária reiteravam que o alerta sobre os produtos permanecia em vigor. O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo enfatizou que a análise do risco sanitário continuava e recomendou que os consumidores não utilizassem os produtos dos lotes afetados até uma decisão definitiva. A própria suspensão temporária das medidas por parte da Anvisa gerou interpretações divergentes sobre a situação. Apoiadores da Ypê passaram a argumentar que a suspensão indicava que a decisão inicial havia sido exagerada ou politicamente motivada, enquanto as autoridades de saúde insistiam que a recomendação de não uso ainda era válida.
Com o recurso da Ypê, a Anvisa deve se reunir nesta semana para decidir se mantém ou revoga a suspensão, conforme noticiado pelo Fantástico. Em comunicado, a Ypê afirmou que a segurança de seus consumidores é sua "maior prioridade".
Como suspensão da Ypê pela Anvisa virou tema de disputa política nas redes
O episódio deixou de ser apenas uma discussão sobre vigilância sanitária e passou a ocupar o centro de uma batalha política nas redes.