O biólogo e ornitólogo Vinicius Costa, que atua em consultorias ambientais pelo Brasil, conseguiu registrar no Pará uma espécie de papagaio pouco familiar para a grande maioria: o papagaio-de-bochecha-azul (Amazona dufresniana). As observações ocorreram nos municípios de Oriximiná e Terra Santa, localizados na região do Rio Trombetas, e foram realizadas ao longo deste ano e em 2025, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a distribuição da espécie no país.

"Os registros foram feitos em várias ocasiões durante monitoramentos da avifauna, onde foi possível observar e registrar casais em diferentes momentos, frequentemente acompanhados de outras espécies de psitacídeos, como o papagaio-moleiro (Amazona farinosa) e a curica (Amazona amazonica)", relata Vinicius. Ele também mencionou que um papagaio-de-bochecha-azul foi avistado sozinho, e que os registros ocorreram principalmente nas primeiras horas da manhã, sempre na parte alta das árvores.

Atualmente, a espécie é classificada como "quase ameaçada" em nível internacional pela IUCN, enquanto no Brasil é categorizada como "Dados Insuficientes" (Salve/ICMBio-MMA), refletindo a falta de informações biológicas sobre sua população. O impacto das diversas ameaças à espécie no Brasil ainda não é bem compreendido.

O biólogo Ricardo Ribeiro, que realiza levantamentos avifaunísticos em diferentes regiões do Brasil, tem trabalhado nos últimos quatro anos com monitoramento no Centro de Endemismo do Escudo da Guiana. "Na Amazônia, especialmente no Escudo da Guiana, ainda existem vastas áreas de florestas intocadas, mas o acesso a elas é mais complicado, dificultando a catalogação de muitas espécies", explica Ribeiro. Ele acredita que novos avistamentos do papagaio-de-bochecha-azul em áreas ainda não estudadas do Amapá, Pará e Roraima são possíveis, já que a ave costuma viver em bandos mistos com outras espécies do gênero Amazona.

No Pará, os avistamentos foram feitos a aproximadamente 420 km da localização mais ao sul conhecida da espécie, na Guiana, o que reforça a evidência de que a ave habita outras áreas nessa porção da Amazônia. Ricardo Ribeiro sublinha a importância de coletar dados comportamentais e ecológicos para compreender melhor como a espécie utiliza seu habitat e quais os efeitos potenciais das atividades humanas sobre suas populações. Informações básicas, como dieta, período de reprodução, locais de nidificação, tamanho dos bandos, sazonalidade e interações com outras espécies e predadores, ainda são limitadas.

O papagaio-de-bochecha-azul é uma espécie endêmica do Centro de Endemismo do Escudo da Guiana, encontrada na Guiana Francesa, Suriname, Guiana e no leste da Venezuela. No Brasil, os avistamentos são raros, com registros documentados apenas em Roraima e no Pará. Esta ave de grande porte é predominantemente verde, com bordas azuis nas penas das asas e penas secundárias externas em um tom laranja-amarelado. Uma de suas características mais marcantes é a coloração azul na região auricular, que pode se estender até o pescoço, além de uma coroa laranja-amarelada e um bico escuro com base avermelhada, que a distingue de outras espécies na Amazônia.

Embora a dieta do papagaio-de-bochecha-azul ainda não seja bem compreendida, acredita-se que ele consuma uma variedade de sementes, frutos e flores, assim como outros papagaios do gênero Amazona. O registro documentado mais antigo da espécie no Brasil foi em 2012, no município de Oriximiná (PA), publicado em um artigo científico na Revista Brasileira de Ornitologia em 2013. Há também menções não documentadas da espécie desde 1995, no Amapá.

O Brasil, antigamente conhecido como “Terra dos Papagaios”, abriga uma imensa diversidade de psitacídeos, com 87 espécies catalogadas, correspondendo a cerca de 25% da diversidade global desse grupo de aves. Entre elas, estão desde pequenos periquitos, como o tuim (Forpus xanthopterygius), até a maior arara do mundo: a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus). Enquanto algumas espécies, como o papagaio-charão (Amazona pretrei), são migratórias, outras, como o papagaio-de-bochecha-azul, são menos conhecidas pelo público e pela ciência.