Os pedestres enfrentaram temperaturas elevadas e um clima seco na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo, 1º de setembro de 2024. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) divulgaram estudos que revelam que as temperaturas mínimas e máximas na capital paulista aumentaram de maneira significativa, superando a média global nos últimos 125 anos. Enquanto a temperatura média do planeta subiu aproximadamente 1,2°C desde 1900, São Paulo registrou um aumento de 2,4°C nas máximas diárias e 2,8°C nas mínimas.
Os cientistas atribuem essa elevação acentuada à chamada "ilha de calor urbana", fenômeno resultante da substituição de áreas verdes por asfalto, concreto e construções. Durante o evento "Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas na saúde das cidades", promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica (NWO), o professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, apresentou essas descobertas.
O fenômeno da ilha de calor ocorre quando áreas urbanas retêm mais calor do que regiões com vegetação, pois materiais como concreto e asfalto absorvem a luz solar durante o dia e liberam calor lentamente ao longo da noite, dificultando o resfriamento da cidade. Os dados indicam que o aumento da temperatura mínima, que geralmente ocorre por volta das 6 horas da manhã, foi ainda mais acentuado do que o das máximas diárias, sugerindo que as noites se tornaram mais quentes nas últimas décadas.
Os pesquisadores observaram que a concentração de ilhas de calor é maior na região nordeste do estado, onde há intenso cultivo de cana-de-açúcar, e em algumas cidades da Região Metropolitana de São Paulo, onde as áreas mais quentes coincidem com as de maior densidade populacional. Imagens de satélite do programa Landsat, da Nasa, foram utilizadas para analisar 70 cidades paulistas entre 2013 e 2025, revelando contrastes extremos de temperatura na Grande São Paulo. Em áreas urbanizadas mais críticas, a temperatura da superfície chegou a atingir 60°C durante o verão, enquanto em regiões com maior cobertura vegetal, a temperatura média foi de cerca de 25°C.
Os dados mostram que a diferença média de temperatura entre os bairros mais quentes e as áreas mais arborizadas variou de 7°C a 12°C durante a estação quente. Os pesquisadores começaram a medir as temperaturas em locais mais próximos da população, como ruas, residências e escolas na Região Metropolitana, em colaboração com o programa municipal Sampa Adapta, da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. A análise de 25 estações meteorológicas revelou que, nos últimos 15 anos, as ondas de calor têm gerado tardes com temperaturas entre 30°C e 34°C em diversas partes da cidade, e à noite, por volta das 22 horas, os termômetros costumam marcar 28°C.
“Esse dado é preocupante, pois é nesse horário que muitos se preparam para dormir”, destacou Rocha, acrescentando que muitas edificações na capital carecem de isolamento térmico adequado para evitar o acúmulo de calor. Em sua comparação, ele ressaltou que várias construções funcionam como pequenos fornos, retendo o calor externo durante a noite.
Os pesquisadores também exploraram soluções para mitigar as temperaturas urbanas. Os estudos indicam que áreas verdes podem ter um "efeito oásis", reduzindo significativamente a temperatura do ar nas ruas. Experimentos demonstraram que locais com maior cobertura vegetal apresentaram uma diminuição de até 7°C em comparação com áreas densamente urbanizadas. Rocha enfatizou a importância da revegetação urbana na Região Metropolitana e no estado de São Paulo como uma oportunidade viável para o resfriamento em eventos extremos.
Durante o encontro, a pesquisadora Thelma Krug, ex-vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), alertou que as cidades precisam se preparar para cenários de aquecimento ainda mais severos. “A influência humana no aquecimento é clara e rápida. Sem ela, não conseguiríamos explicar as mudanças observadas desde 1950”, declarou. Krug também anunciou que o IPCC lançará em 2027 um relatório especial focado nas cidades e nos impactos das mudanças climáticas em áreas urbanas.
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Principal motivo para aquecimento mais intenso na capital é o fenômeno conhecido como 'ilha de calor urbana', causado pela substituição de áreas verdes por asfalto, concreto e edificações.