A Capela São Benedito de Santos Pretos, situada nas ruas de Lavras (MG), evoluiu ao longo dos anos para se tornar um importante espaço de convivência, além de um local de culto. Inserida no quilombo urbano São Benedito, a capela é um ponto de encontro onde se entrelaçam histórias de fé, acolhimento e a preservação de tradições culturais, tudo mantido pela própria comunidade.
Recentemente, o espaço ganhou notoriedade por conta de uma visita especial em celebração ao dia 13 de maio, que marca a assinatura da Lei Áurea e é também uma data de devoção à escrava Anastácia, venerada como um símbolo de resistência e proteção pelos frequentadores da capela.
A origem da Capela São Benedito de Santos Pretos remonta à união de líderes religiosos, culturais e moradores do quilombo. O local faz parte da Associação Sociocultural Castelo de São Jorge, que busca preservar e promover as manifestações culturais, religiosas e saberes populares das tradições afro-brasileiras da região. Entre os idealizadores do projeto estão figuras como o mestre de capoeira Emerson Ferreira e Pai Vítor Pereira da Silva.
Com o tempo, a capela se tornou não apenas um espaço para celebrações, mas também um centro de apoio e fortalecimento da comunidade. Os responsáveis pelo local enfatizam que um de seus principais propósitos é acolher pessoas em situação de vulnerabilidade e fomentar a solidariedade entre os membros da comunidade. Pai Tales de Ogum, um dos responsáveis pela capela, destaca que o local é um refúgio para aqueles que necessitam de apoio espiritual e emocional.
A imagem da escrava Anastácia é central na capela, onde sua devoção transcende gerações, mesmo sem reconhecimento oficial pela Igreja Católica. Para muitos, Anastácia simboliza resistência e esperança. Pai Tales explica que ela representa a luta enfrentada pelas comunidades tradicionais ao longo da história e hoje se tornou um ícone de liberdade e proteção.
Lucineia da Silva Balbino, moradora do bairro Judith Cândido de Andrade, frequenta a capela há quatro anos e relata que encontrou apoio em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Para ela, a capela é um lar, um lugar onde se sente acolhida e fortalecida. Lucineia acredita que a devoção à escrava Anastácia é um símbolo de luta e um incentivo para enfrentar as dificuldades cotidianas.
Ela também ressalta que a preservação das tradições da capela é uma batalha contínua, especialmente diante do preconceito enfrentado por religiões de matriz africana. Lucineia se empenha em transmitir os valores aprendidos na capela para sua família, especialmente para seu neto, que já está sendo ensinado sobre a cultura afro-brasileira.
Além de sua função religiosa, a capela promove diversas atividades culturais, como oficinas de artesanato e rodas de conversa sobre memória e ancestralidade, que visam preservar os saberes e tradições da comunidade. Pai Tales destaca que a preservação do conhecimento dos mais velhos é uma prioridade, garantindo que as tradições continuem vivas.
Apesar de estar em processo de reforma, a Capela São Benedito de Santos Pretos permanece aberta para atividades culturais e religiosas, consolidando-se como um espaço de memória e valorização das tradições dentro do quilombo urbano. Pai Tales reafirma que o local é dedicado não apenas à espiritualidade, mas à preservação da história e herança cultural que é passada de geração em geração.
Entre fé e resistência, Capela 'São Benedito de Santos Pretos' preserva tradição ligada à escrava Anastácia no Sul de MG
Espaço criado pela comunidade dentro do quilombo urbano São Benedito reúne religiosidade popular, tradições afro-brasileiras e apoio a moradores de Lavras.