Militares envolvidos na Chacina de Miracema teriam criado um grupo em um aplicativo de mensagens intitulado “Operação Anamon” algumas horas antes do assassinato de Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva na delegacia local. Essa informação foi revelada em uma decisão que resultou na determinação da prisão preventiva de 23 policiais militares, além da aplicação de medidas cautelares.

Na última sexta-feira (8), todos os 23 militares suspeitos compareceram à sede do Comando Geral da Polícia Militar. O advogado Paulo Roberto, que representa parte deles, declarou que ainda não teve acesso à decisão que decretou as prisões e afirmou: "Assim que tivermos conhecimento, poderemos emitir um parecer sobre a situação."

Segundo a decisão judicial, o policial que criou o grupo teria coordenado as equipes envolvidas e estava na posse de uma caminhonete que foi flagrada por câmeras de segurança, se dirigindo à delegacia e saindo logo após o ataque. O nome da grupo faz referência ao sargento Anamon Rodrigues, que morreu em um confronto em fevereiro de 2022, e que teve sua morte seguida por uma série de outros assassinatos na cidade, incluindo das vítimas mencionadas.

Os 23 policiais são acusados de estarem envolvidos em "atos de extrema violência" em um contexto de represália, que inclui a chacina, uma invasão armada à unidade policial e a tentativa de ocultação de provas. O Colegiado de Juízes da 1ª Vara Criminal de Miracema destacou que a maneira como os crimes foram cometidos, com planejamento prévio e divisão de funções, demonstra um alto grau de periculosidade e um risco real caso os envolvidos continuem em liberdade.

A Polícia Militar informou que está acompanhando a situação por meio da Corregedoria-Geral, garantindo apoio institucional para o cumprimento das ordens judiciais e das investigações em andamento. A corporação reafirmou que não tolera desvios de conduta e que os fatos serão minuciosamente investigados.

Após a morte do sargento Anamon, Valbiano Marinho da Silva, considerado suspeito de ter assassinado o policial, foi morto em sua casa. O crime ocorreu logo após a detenção de seu pai e irmão, Manoel e Edson, que foram levados à delegacia. A mãe de Valbiano afirmou que a casa foi invadida pelos policiais e que seu filho foi executado algemado na porta.

Manoel e Edson prestaram depoimento na madrugada do dia 4 de fevereiro de 2022 e decidiram permanecer na delegacia até amanhecer para garantir uma volta segura para casa. Durante esse período, a delegacia foi invadida por um grupo encapuzado que atacou pai e filho. A movimentação de viaturas na área começou por volta das 4h30, e as duas vítimas foram mortas às 6h29.

O major Yurg Noleto Coelho foi identificado como uma "liderança informal" das equipes que atuaram disfarçadas. Imagens mostram que ele estava emitindo ordens e posicionou uma viatura para monitorar as rotas de fuga. Após a invasão, ele e outros policiais se dirigiram a um posto de combustível para coletar os HDs das câmeras de segurança que poderiam ter registrado o ataque.

Na sequência, Aprigio Feitosa da Luz, Gabriel Alves Coelho e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues foram encontrados mortos em um local conhecido como Jardim Buriti. Testemunhas relataram que eles foram abordados em um posto de gasolina e levados sob a falsa alegação de que seriam levados para a delegacia, mas acabaram executados em represália à morte do sargento Anamon.

A Polícia Militar do Tocantins confirmou que está ciente da decisão judicial que resultou em medidas cautelares contra os policiais, incluindo mandados de prisão e afastamento das funções. A corporação reitera seu compromisso com a legalidade, ética e transparência, e assegura que todos os envolvidos terão o devido processo legal garantido. Além disso, a PM continuará colaborando com as instituições responsáveis, reafirmando seu compromisso com a ordem pública e a confiança da sociedade.