Nos primeiros três meses de 2026, as regiões de Piracicaba e Campinas registraram um aumento de 17% nas ocorrências de violência doméstica, totalizando 13 mil casos, conforme informações do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior (Deinter-9). Comparando com o mesmo período do ano anterior, quando foram registrados 4.625 incidentes, o crescimento é alarmante, com 5.411 registros entre janeiro e março deste ano.

Março, mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, foi marcado como o período com o maior número de ocorrências. A delegada Olívia Fonseca, responsável pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Piracicaba, analisa essa elevação e destaca que muitos dos casos vão além da violência física. Ela enfatiza a necessidade de denúncias, afirmando que "o silêncio mata".

A delegada explica que, anteriormente, a violência era entendida apenas como aquela que deixava marcas visíveis. "Hoje, com as campanhas de conscientização, estamos mostrando que a violência se inicia muito antes da agressão física, com abusos psicológicos, humilhações e comportamentos degradantes", esclarece. Ela acrescenta que é crucial que as mulheres que enfrentam essas situações quebrem o silêncio e façam denúncias, seja diretamente na delegacia, pelo telefone 180 ou através da DDM online.

De acordo com dados recentes, a maioria das vítimas de violência doméstica na região é composta por mulheres pardas, com idades entre 21 e 45 anos, sendo a faixa de 26 a 30 anos a mais afetada, com 2.086 ocorrências registradas. Os dados do Painel sobre Vítimas da Violência Doméstica da SSP também revelam que os agressores são, em sua maioria, pessoas conhecidas das vítimas, incluindo parceiros, ex-parceiros, amigos e familiares.

As estatísticas mostram que os agressores frequentemente têm ou tiveram um relacionamento amoroso com as vítimas. A forma mais comum de violência reportada foi a ameaça, com 4 mil casos, seguida por calúnia, difamação ou injúria, que somaram quase 3 mil. Lesões corporais dolosas foram registradas em cerca de 2.600 casos, além de 1.500 casos de perseguições e 457 de danos.

Lucia Simões Batista, moradora de Nova Odessa, compartilhou sua experiência de violência doméstica, relatando que já registrou nove boletins de ocorrência contra seu ex-namorado durante o relacionamento. Ela descreveu episódios de agressão física e verbal, além de intimidações que a levaram a buscar uma medida protetiva após três anos de abusos. "Ele sempre me dizia que se eu registrasse um boletim de ocorrência, eu seria morta", contou.

A DDM de Piracicaba vem lidando com uma alta demanda, com uma média de três pedidos de medida protetiva por dia, totalizando 1.100 registros em 2025. Durante um evento para a assinatura do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, a delegada Olívia destacou a sobrecarga da unidade, enfatizando a necessidade de mais atenção e recursos. Em 2025, 953 das medidas solicitadas foram concedidas, representando um aumento de 22,5% em relação ao ano anterior.

O Pacto Nacional contra o Feminicídio, assinado com a presença da ministra das Mulheres, Márcia Lopes, visa acelerar os processos relacionados à violência contra a mulher e reforçar a importância do funcionamento contínuo das delegacias especializadas, além de ampliar as políticas municipais e promover o uso do Ligue 180.